Dados da Firjan e do IBGE mostram o peso econômico da criatividade e ajudam a compreender as oportunidades da economia da experiência para negócios e cidades.
Por Alberto Portugal
A criatividade tem participação expressiva na economia brasileira. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, da Firjan, as atividades do setor responderam por R$ 393,3 bilhões em 2023, equivalentes a 3,59% do Produto Interno Bruto nacional. O levantamento também identificou aproximadamente 1,26 milhão de profissionais criativos formalmente empregados naquele ano, crescimento de 6,1% sobre 2022.
Em outra frente, os hábitos de viagem revelam a importância de vivências ligadas à identidade dos lugares. A pesquisa Turismo 2024, do IBGE, mostra que cultura e gastronomia foram a principal finalidade de 24,4% das viagens de lazer, ante 21,5% em 2023. Esse movimento aproxima o debate sobre criatividade de um conceito cada vez mais relevante para empreendedores e gestores: a economia da experiência.
Popularizada por B. Joseph Pine II e James H. Gilmore, em artigo publicado na Harvard Business Review em 1998, a ideia de economia da experiência trata da criação de valor por meio de vivências memoráveis. Nesse modelo, a forma como alguém participa de uma atividade passa a integrar a própria oferta.
Uma oficina de cerâmica ajuda a visualizar essa diferença. O participante pode comprar uma peça pronta, mas também pode pagar para conhecer o processo, trabalhar com o barro e produzir seu próprio objeto. O valor dessa segunda oferta envolve aprendizagem, convivência e memória, além do resultado material.
O mesmo raciocínio pode orientar visitas a espaços históricos, roteiros gastronômicos, apresentações culturais e atividades em ateliês. São exemplos de como conhecimentos e referências culturais podem ser organizados em experiências com participação do público.
Um mercado que atravessa diferentes setores
O recorte da Firjan abrange 13 segmentos, distribuídos entre consumo, mídias, cultura e tecnologia. Isso inclui arquitetura, design, publicidade, audiovisual, música e desenvolvimento tecnológico. A participação estimada da indústria criativa no PIB passou de 2,09% em 2004 para 3,59% em 2023.
Já o Sistema de Informações e Indicadores Culturais do IBGE aponta 5,9 milhões de pessoas ocupadas no setor cultural em 2024, correspondentes a 5,8% dos trabalhadores brasileiros. O levantamento também evidencia um desafio: a informalidade atingia 44,6% dos ocupados na cultura, acima dos 40,6% registrados no conjunto da economia.
Os números do IBGE e da Firjan utilizam definições e metodologias diferentes. Por isso, não devem ser somados nem comparados como se medissem o mesmo universo. Enquanto um levantamento apresenta um recorte do setor cultural, o outro analisa a indústria criativa e suas ocupações formais.
Também é necessário distinguir economia criativa de economia da experiência. A primeira reúne atividades nas quais criação, conhecimento e conteúdos simbólicos têm papel central. A segunda descreve uma maneira de organizar ofertas e gerar valor pela vivência do consumidor. Elas podem se encontrar, mas não são equivalentes.
Cultura e gastronomia abrem possibilidades
Os gastos com viagens nacionais com pernoite chegaram a R$ 22,8 bilhões em 2024, alta de 11,7% em relação a 2023, segundo a pesquisa do IBGE. Esse valor corresponde ao recorte de viagens investigado e não representa o faturamento de toda a economia da experiência.
O avanço da participação de cultura e gastronomia nas viagens de lazer sugere oportunidades para iniciativas que conectem visitantes à vida dos territórios. Uma possibilidade é reunir produtores locais, artistas, cozinheiros e espaços de memória em programações articuladas.
Em Ponta Grossa, esse olhar pode orientar propostas que aproximem patrimônio, produção artística, gastronomia e histórias da cidade. Um roteiro pode combinar visita mediada, encontro com um artista e degustação de um produto local. Trata-se de uma possibilidade de desenvolvimento, cuja viabilidade depende de pesquisa de público, planejamento e avaliação.
Para pequenos negócios, o caminho pode começar com uma pergunta: o que o público consegue conhecer, aprender ou realizar aqui que torna esta experiência significativa?
Crescimento exige condições de trabalho e acesso
Os dados apontam relevância econômica, mas também mostram que ampliar o mercado exige atenção às condições de quem trabalha nele. A informalidade elevada na cultura reforça a necessidade de discutir remuneração, continuidade dos projetos e formação profissional.
Na economia da experiência, a qualidade depende de toda a jornada do público: informação clara, facilidade de acesso, acolhimento, acessibilidade e coerência entre o que se anuncia e o que se entrega.
A leitura conjunta dos indicadores sugere um campo de oportunidades para o Brasil. Transformar referências culturais em experiências sustentáveis, porém, exige mais que uma boa ideia. Exige organização, respeito aos criadores e capacidade de oferecer ao público algo que mereça ser vivido.



